Encerramento da VII Conferência (Joana Mortágua) PDF Imprimir e-mail
07-Jun-2012

jo_udp_2012.jpgBoa tarde camaradas,

Quero em primeiro lugar saudar todos os camaradas e a nova Direcção Nacional eleita, cumprimentar também os nossos convidados, e agradecer a todas e a todos pelo debate que aqui tivemos durante estes dois dias. Para encerrar a 7ª Conferência nacional da UDP gostava de vos falar dos desafios que temos pela frente. Eles serão enormes, mas temos todas as condições para os encarar com o optimismo de quem se sente e está preparado para qualquer luta.

Vivemos um momento de viragem e a UDP revelou, não só no processo desta 7ª Conferência mas também na militância de todos os dias, que está à altura do momento. Quando a UDP nasceu, vivia-se um processo revolucionário. Também hoje os tempos são críticos e a exigência é imensa. A crise do capitalismo que aqui discutimos é o motor de grandes transformações no Imperialismo, nos Estados e nos regimes sociais. As marxistas e os marxistas da UDP estão na posse da capacidade de interpretar as grandes transformações desencadeadas pela crise e estão também com determinação na escolha dos caminhos para enfrentar a austeridade e defender a democracia.

No momento em que se anuncia “o fim do progresso”, o retrocesso profundo das conquistas populares e dos trabalhadores, a consciência e a determinação dos sectores mais avançados do campo progressista são mais do que nunca imprescindíveis. O desafio que se coloca à primeira geração condenada a viver pior do que os seus pais torna incontornável a emergência de novas vanguardas no campo dos trabalhadores e na amplitude de todas as lutas.


Esta corrente nascida das lutas populares de 1974/75 percorreu já um longo caminho de refundação ideológica, de aprofundamento e actualização do marxismo. Crescemos com as vitórias, e aprendemos a aprender com as derrotas, por mais injustas que fossem. Nos sendeiros de uma revolução, fizemo-nos revolucionários, e por nunca ter renunciado à nossa história, chegámos ao início da segunda década do século XXI renovados, com um novo impulso marxista num partido plural e com vocação de massas, que é o Bloco de Esquerda, e com um número agora crescente e significativo de jovens activistas e dirigentes.

A UDP tem uma história, mas tem principalmente futuro. E essa deve ser a razão do nosso optimismo perante os desafios que nos estão colocados. O futuro da UDP passa pelos jovens que serão continuadores do papel desta corrente marxista no quadro da luta de classes que se intensifica. Formar novas gerações de revolucionários é uma tarefa colectiva.

As crises são tempos de grande ataque da burguesia e do capital sobre os trabalhadores e os povos. Mas são também momentos em que a resistência e contra-ofensiva popular se reorganizam e acumulam forças. A força dessa resposta terá todo o rasgo, toda a determinação desta juventude marxista que se está agora a afirmar.

A nossa corrente marxista não está presa aos limites formais da UDP. As nossas fronteiras reais foram conquistadas por nós, avançadas no amplo campo da esquerda com menta aberta e razão determinada no diálogo e no confronto com outras propostas.



Nós somos uma corrente ideológica organizada para a disputa de ideias em campo aberto. É assim que fazemos o debate num partido plural e democrático. Em campo aberto discutimos as ideias e os seus protagonistas. O que manda no casting é o texto da peça, e por isso recusamos qualquer tipo de primárias. E em campo aberto recusamos o centralismo e a estigmatização da divergência política. No Bloco de Esquerda cada militante vale pelas suas ideias, e decide organizar-se livremente tendo como critério de unidade a sua afinidade ideológica, estratégica e táctica.

É neste quadro – e precisamente porque a disputa se faz em campo aberto - que temos de encarar como frutos da pluralidade democrática a existência no Bloco de muitos camaradas que não sendo desta Associação Política, são ganhos para as propostas marxistas; enquanto outros se aproximam a outras afinidades e influências. A liberdade e a responsabilidade são elementos necessários à democracia interna, da qual não abdicamos na construção de um partido de massas.

No momento actual a construção de um partido de massas funda-se na oposição à barbárie do empobrecimento e à violência da austeridade, amplifica-se na resistência popular e afirma-se como alternativa através de uma proposta ampla e convergente, capaz de mobilizar uma maioria social. Cada vez mais essa proposta assume os contornos de um Governo de Esquerda com um programa radical.

Na Grécia, a esquerda abriu horizontes de esperança para milhões com um programa radical que rompe com o memorando da Troika; na Alemanha, o Die Linke bate-se em todas as eleições e na luta social com propostas socialistas para “uma transformação revolucionária”.

Em França, a Frente de Esquerda do ex-PS Mélenchon apelou a uma revolução cidadã e á proclamação de uma nova República que ultrapasse os horizontes do capitalismo. Não faremos por menos. Também em Portugal, é tempo de ser exigente, como afirmou um dos primeiros slogans do bloco de esquerda.

Fundamos o nosso europeísmo de esquerda na afinidade com os programas radicais destas forças políticas. Só a aliança com estes partidos e com todos os movimentos sociais progressistas corresponderá à necessidade histórica de refundação europeia. A Europa das democracias convoca-nos para a luta. Recusar o Tratado de Lisboa, o federalismo e a NATO são exigências europeístas.

Temos por isso clareza sobre a proposta do Governo de Esquerda. Ela distingue-se do Governo de Salvação Nacional pela consistência do seu programa alternativo. Distingue-se porque não é uma tentativa de reforço do centro, onde mora o vazio. Um Governo de esquerda nasce da ruptura social que rasga o vazio com a força da alternativa, que destrói o centro e combate a direita conservadora.

Sair da NATO, recusar o Tratado de Lisboa que impõe a Europa do directório; romper com o memorando da troika que institucionaliza o protectorado em nome da austeridade; rejeitar o Pacto Orçamental que impõe o federalismo orçamental e a regra de ouro; exigir a mutualização da dívida e o controlo democrático do BCE; renegociar a divida; nacionalizar os sectores estratégicos; impor uma política fiscal agressiva para o capital; aumentar os salários; defender o emprego e o investimento público; promover a modernização ecológica; resgatar a democracia aos mercados financeiros. A proposta de um Governo de esquerda terá o alcance do seu programa na construção de uma maioria social, e tudo o resto é ruido.

Na base deste programa, o bloco reafirma a sua identidade estratégica e recusa ter papel na recomposição do poder centrista. Haverá quem se desencante da esperança perante as dificuldades objectivas da luta popular. A esses o centro parecerá mais atractivo, na procura de uma solução de poder que amorteça a austeridade. A falta de horizonte estratégico turva a visão, perde o centro da táctica, só encontra saídas ao centro.

É preciso ver mais longe, vivemos um período de grandes transformações e horizontes abertos. A burguesia está na ofensiva contra os direitos conquistados pelos trabalhadores e os povos. Mas a crise não é um cenário fechado, também há crise nos dominantes e aprofundam-se as condições para a radicalização das consciências.

O avanço do empobrecimento e o recuo da democracia geram um sentimento de emergência, de urgência de respostas. Alguns sectores mais radicais da sociedade iludem-se e desiludem-se entre a capitulação da social-democracia e a inconsequência anarquista. A esquerda não pode ficar acantonada neste beco.

O marxismo continua a irradiar capacidade de alternativa. É o marxismo que nos permite afastar de equívocos sobre as relações de forças, sobre a vanguarda, sobre o imperialismo, sobre as coordenadas da luta. A divulgação do programa socialista aponta um rumo para o despertar de consciências de uma maioria social transformadora.

Em Portugal, o Bloco de Esquerda tem a responsabilidade de promover a alternativa socialista. Os desafios são demasiado grandes para que o Bloco que se feche em si próprio.


 Camaradas, É preciso abrir portas e janelas. Protagonista do socialismo sem muros, o Bloco terá de revigorar o seu projecto através da democracia. Sem medos, sem centralismos nem sectarismos, na convergência de todas as afinidades que partilhem a identidade estratégica dos documentos fundadores.

O Bloco tem pela frente dois desafios essenciais: manter o rumo de um programa alternativo, e para isso a UDP tem contribuído largamente; e aprofundar a democracia interna no novo ciclo que se aproxima com a transição da direcção.

Encaramos este processo com naturalidade. Todos os partidos têm os seus ciclos, todas as direcções têm o seu tempo. A maturidade dos partidos faz-se também da sua capacidade de se renovarem e reinventarem garantindo a continuidade do projecto que representam.

Como há 13 anos atrás, estamos comprometidos e empenhados neste processo. Foi a UDP que ajudou a construir o Bloco, estivemos nas decisões mais importantes, tivemos e temos vários deputados e dirigentes eleitos. Ninguém pode esperar que a UDP se demita do núcleo dirigente mais importante do Bloco de Esquerda. Qualquer solução de liderança que garanta a matriz deste projecto terá de englobar no centro pessoas afectas à UDP. Essa é a nossa responsabilidade.

Esta conferência provou que estamos á altura dos desafios que nos serão colocados. Eles serão enormes, mas temos todas as condições para os encarar com o optimismo de quem se sente e está preparado para qualquer luta.

 
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